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EXTERIORIDADE DO CORPO DO SER IDOSO

EXTERIORIDADE DO CORPO DO SER IDOSO

Instituto Ampliar


29/08/2020

A velhice é um fenômeno biopsicossocial e cultural que explana-se por modificações em nível de exterioridade. Com as alterações do corpo, o externo passa a escancarar a imagem do envelhecimento do indivíduo. Assim, este artigo tem por finalidade apresentar uma compreensão da importância do olhar sobre o processo de envelhecimento e sobretudo na vivência da velhice. Para isso, na construção desta reflexão me embasei na Psicologia Fenomenológico-Existencial.

O existencialismo compreende que a vivência da velhice tem relação do homem com o outro, com os atos circundantes e com o mundo. Sendo assim, a velhice aparece de maneira mais lúcida para os outros do que para o próprio ser que envelhece. Embora algumas indisposições e fatores biológicos possam ser reconhecidos, por vezes são negadas ou são colocadas em interrogação. “É necessário ter consciência da idade para decifrá-la no corpo” (Beauvoir, 1970, p. 348).

Sendo assim, para o processo de envelhecer Sartre (1997) coloca em “O ser e o nada”, que o irrealizável é um ser a distância, que limita todas as escolhas e constitui o um avesso, um ser que fica declarado no olhar do outro, naquilo que reflexiona ou verbaliza a respeito. Essa visualização articula-se por meio de uma imagem na qual tenta representar quem se é através do olhar que os outros têm sobre si. Quando não há ligação entre o que a pessoa pensa a respeito de si e o que o contexto social que esta inserida reflete a respeito de quem é, pode-se desenvolver possíveis crises de identidade e outras formas de sofrimento. Desse modo, ser limitado pelo olhar do outro e não ter autonomia de controlar a forma pela qual esse olhar compreenderá a sua existência é angustiante por si só.

O movimento da pessoa idosa depende também de qual entendimento que se tem em relação à velhice, que, por sua vez, está conectado com a percepção de velhice da sociedade em que se vive. Se o idoso compreende que o velho é ressignificado como algo inferior e negativo, então, evita-se qualquer alusão à idade, e querem a necessidade de mascarar e não viver a velhice.

Quando reflexionamos o impacto do outro sob a vivência da velhice, necessitamos compreender que, além de vários marcadores e estigmas que afetam cotidianamente a subjetividade do idoso, temos um olhar enrijecido pela coletividade que ressoa nos discursos sociais que constroem a velhice e o seu processo do envelhecer. E infelizmente este movimento é um ponto forte para um cunho pejorativo, principalmente no que se refere a uma sociedade tecnológica, com rápidas transformações.

Perante a exterioridade que apresenta o corpo do ser idoso, a velhice ocorre por distinções entre a aparência e o senso de identidade, entre a relação que se tem com o outro e com o mundo que, por sua vez, refletem ao idoso a sua velhice. Torna-se essencial que o idoso alcance uma integração entre corpo-mente, entre eu-outro e entre sua autoimagem e sua identidade. A necessidade dessa integração faz com que o homem não dissipe a ambiguidade de seu ser, compreendendo que é possível projetar um olhar de si a partir do próprio senso identitário e do que o outro lhe ressoa.

O ser humano é um ser de exterioridade, pois está lançado no mundo em relação com esse mundo e com os outros, mas também é um ser singular universal, pois age, se questiona, e és livre. O entrave que surge na velhice é que a interioridade e a exterioridade, embora inseparáveis, podem deixar de ser harmônico, ou seja, o idoso pode não reconhecer ou não querer reconhecer a velhice em sua interioridade, se confrontando quando essa é expressa pelo outro a exterioridade. No entanto, não existe um ser fora do mundo, não existe uma individualidade, uma subjetividade que não seja constituída na relação.

Ressalto no ensejo, então, a importância da desconstrução da imagem pejorativa que persiste no que se refere à velhice e também ao cuidado da idealização desse momento da vida. Pois manter uma compreensão negativa aumenta a negação, dificultando uma vivência consciente e integrada. Se ampliarmos a compreensão do processo de envelhecimento como uma facticidade, podemos projetar ainda na juventude uma vida mais saudável no vir a ser. Com medidas cabíveis e conscientes, como cuidados com a alimentação, atividades físicas e cuidado com a saúde mental.

Por outro lado, romantizar a velhice como a melhor fase da vida é também refutar toda uma gama de alterações que são intrínsecas a este momento. O ideal é que possamos promover um diálogo sobre a velhice em sua completude, com todas as possibilidades e dificuldades que podem ser vivenciadas pelos idosos, de forma ampla e em suas singularidades, inserindo nesta reflexão as diversas faixas etárias, o qual é fundamental. Afinal, somos os idosos do amanhã!

 

REFERÊNCIAS

Beauvoir, S. (1970). A velhice. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira.

Sartre, J. P. (1970). O existencialismo é um humanismo. R. C. Guedes, Trad. Paris, France: Les Éditions Nagel. (Obra original publicada em 1970).

Sartre, J. P. (2007). O ser e o nada - Ensaio de ontologia fenomenológica. P. Perdigão, Trad. Petrópolis, RJ: Vozes. (Obra original publicada em 1943).

 

Autor: Sidnei Eugênio de Oliveira 
Acadêmico da 5ª Serie de Psicologia da Universidade Paranaense  - UNIPAR Campus Cascavel/PR
Estagiário da EQUIPE AMPLIAR